Episódio um: “Resgates”

Berenice atendeu o telefone. Um som estranho era a única coisa que ouvia, como se alguém rastejasse próximo ao aparelho pelo qual falava. Em seguida, ela pôde ouvir uma voz masculina abafada:

“Eu também sei quem é você…” e o som da garganta sendo sufocada permitia entender que não haveria nome para ouvir naquele momento. Enquanto isso, ela buscava a localização de quem telefonou para o serviço de emergência. Tratava-se das proximidades de uma pequena cidade chamada Vale Alberione. O drone mais próximo já estava a caminho.

Um som chamou sua atenção. Era como se o ar tivesse sido sugado. Um segundo depois, o aparelho sofreu uma tentativa audível de destruição. Provavelmente um pé pesado tentou esmagá-lo. Passos foram ouvidos, junto do escorregar de uma massa pesada, talvez um corpo. 

“Fique tranquilo, garoto… Nem tudo está perdido” e Berenice transformou-se em uma estátua em sua cadeira. Empertigou-se por um breve momento, antes de retornar sua atenção para a tela. Ela conhecia aquela voz. Apavorada e empolgada ao mesmo tempo, viu-se tomando as medidas necessárias enquanto os passos do homem se afastavam. Puxou o seu smartphone e mandou um recado breve, junto da localização: “L. M. Vale Alberione. Resgate e cena.”. A resposta “A caminho” foi quase imediata.

Continuou ouvindo até que o drone chegasse ao local, poucos minutos depois.

Uma imagem razoavelmente nítida apareceu em sua tela, mostrando, do alto, uma casa antiga em L. Com alguns toques em sua tela, pôde ver uma imagem termostática que revelou um corpo encolhido rodeado por três outros corpos em pé. Ela continuava a ouvir pelo telefone quando um disparo distante a pôs em estado de alerta, novamente.

Corram!”, a voz que gemeu antes voltou a falar, desta vez num sussurro débil. Passos seguiram a fala, confirmando o movimento mostrado pelo drone. Algo em torno de dois minutos após a fuga, e o drone de Berenice transmitiu a chegada de uma ambulância com spots apagados. Ela baixou o drone, utilizando-o como guia para as três pessoas que saltaram do veículo com uma prancha amarela de resgate, guiando-os até a porta escancarada pela qual os três saíram.

Menos de um minuto e surgiram carregando na prancha um rapaz provavelmente desacordado. Entraram na vã, que arrancou  e sumiu. Meia hora depois, a mesma ambulância ou uma muito parecida estacionou de ré imediatamente em frente à porta da casa por onde saíram com o rapaz. Foi possível ver alguém arrastar um saco preto carregado com seu conteúdo apropriado: um corpo. Um morto.

Desconhecendo aquela ação, Richard Steward balançou muito em uma ambulância razoavelmente silenciosa até que o veículo parasse, de supetão, e as portas traseiras fossem abertas. Desacordado na prancha amarela, foi levado às pressas por um corredor largo, de paredes cobertas por lâminas de madeira e teto branco, até uma sala completamente diferente. No trajeto, suas roupas foram cortadas, de forma que sua fronte ficasse toda exposta.

Alva, cheia de equipamentos de metal e utensílios esterilizados, a sala de cirurgia estava plenamente preparada para receber o garoto, soando bipes e sons semelhantes, próprios do ambiente. Quatro enfermeiros jogaram Richard completamente nú em cima da mesa fria de metal. Outras pessoas encarregaram-se de higienizar rapidamente a área do paciente que passaria pelo procedimento, cobrir o restante do corpo com uma manta azulada descartável, aplicar a anestesia e outras inúmeras pequenas tarefas essenciais, até que outras duas pessoas aproximaram-se do rapaz.

O cirurgião suspirou profundamente, o olhar buscando o amparo necessário da colega. Ambos exibiam expressões de quem sabia o que fazer e também da gravidade da tarefa e, com um sinal, o procedimento teve início.

Na sala ao lado, as roupas ensanguentadas de Richard eram emboladas e jogadas em um saco leitoso enquanto a prancha era lavada com o jato de uma mangueira de metal.

Em Vale Alberione, um drone se afastou da cena de vários crimes. Havendo gravado alguns deles, teve sua memória apagada após o envio de um arquivo para um promotor de justiça aposentado que descansava em uma fazenda próxima. Em seguida, num acidente forjado que o lançou de encontro ao paredão da grande represa de Vale Alberione, foi destruído.

─ O que eu posso concluir depois disso… ─ o prefeito de Vale Alberione, aos poucos, mudava o tom de sua fala, de uma certeza para um questionamento.  ─ Eu… definitivamente preocupo-me com o futuro desta cidade…

Ele sentia os olhares direcionados para ele. Pedro Dunkle-Nacht, que antes encarava a câmera simples de um smartphone utilizado para a transmissão ao vivo, de repente começava a tremer ao dar-se conta daquilo que se aprontava para dizer, surpreendentemente verdadeiro, desta vez. E assustador, também.

─ Vivíamos num lugarzinho pequeno, longe de tudo e de todas as ameaças… ─ suspirou. Sinais de ansiedade começavam a marcar seu rosto bastante pálido. ─ E, agora, vivemos num lugar muito diferente. Vale Alberione já não parece mais a mesma desde que Richard Steward morreu.

Olhou para os que o acompanhavam no quarto, indicando que sua fala aproximava-se do fim.

─ Já não podemos mais tolerar o caos e a insegurança que estes jovens trouxeram para a nossa pequena – mas decente – comunidade. ─ e, por fim, firmando outra vez seu olhar, permitindo-o penetrar naqueles que o assistiam, concluiu.  ─ Convido nossa comunidade para agir sem ter pena desses garotos e defender nossa comunidade. Precisamos tê-los presos antes que façam mal a mais alguém. Eles devem ser entregues à Guarda Nacional!

Longe dali, embora não tanto, Sibila e Pe. José plantavam-se em frente a um homem de juventude evidente, ocupante de um posto questionável para a sua maturidade: o rei.

─ Vossa Majestade! ─ os dois disseram, quase em uníssono, fazendo de um atrapalhado gracejo com a cabeça as vezes de uma reverência.

─ Por favor. ─ o rapaz falou, indicando as cadeiras já postas para recebê-los. O olhar era duro, avaliador e defensivo. ─ Fiquei sabendo que é quase tarde demais pra ouvir vocês. Parece que eu falhei mais uma vez quando deveria ter ido ao encontro de vocês.

─ O senhor, talvez. ─ respondeu, com um sorriso esquisito, o padre. ─ Nós, quem sabe. Poderíamos ter ido até o senhor muito mais cedo. Outros também podem ser incluídos na lista, eu acredito. O que importa é que, agora, o senhor nos escuta. E com atenção, posso perceber. Muito obrigado, Vossa Majestade.

Constrangidos pelas insinuações do padre, os três se entreolharam por alguns instantes. Havia o que ser dito. Empertigada, Sibila tomou a frente:

─ Temos um perigo real em nossas mãos, senhor. ─ ela ergueu o queixo e não permitiu visita de simpatia alguma pelo rapaz. ─ Seu primo em segundo grau, o Conde Leonardo de Mattos.

Eles ainda não haviam almoçado desde que tudo aconteceu. Portanto, o suco com biscoitos servido assim que eles entraram no gabinete do rei foi muito bem-vindo. O rei estava ao outro lado da mesa e Vicente se posicionava a meio caminho, fazendo a ponte entre Sua Majestade e os demais.

─ Vossa Majestade, este país está mais dividido do que o senhor pode imaginar. ─ afirmou Vicente. ─ Estes dois estão aqui porque alguns eventos sérios tem ocorrido em níveis de proximidade inaceitáveis, senhor.

─ Ótimo, então deixe eles falarem. ─ Eduardo sequer olhou para Vicente. Cravava seu olhar duro e avaliador em cada centímetro visível de seus convidados. ─ O que tem de tão grave acontecendo debaixo do meu nariz que eu, mais uma vez, não percebi?

Um gole do suco foi interrompido por Sibila, que não foi acompanhada pelo padre no gesto. Ele apenas terminou de bebericar sua bebida enquanto Sibila enrijeceu um sorriso muito falso e viu seus pensamentos fluírem por outro caminho rumo ao desconhecido. O som do suco sendo engolido foi o primeiro a ser ouvido, até que o padre finalmente falou.

─ Presumo que Vossa Majestade conheça Leonardo de Mattos.  ─ o sorriso solidário que acompanhou a fala serviu apenas para deixar o rei surpreso e confuso.

─ É óbvio que o conheço. ─ o garoto rei balançou a cabeça, irritado. ─ O que ele tem a ver com isso?

─ Bem, é que… ele não só tem a ver, como tem a mostrar, senhor. ─ o padre respondeu. O seu sorriso doce tentava acalmar o ouvinte já à beira de um colapso, enquanto Sibila investia em um biscoito. ─ A situação que vivemos, em grande parte, deve créditos à Leonardo, senhor.

Houve, então, um silêncio, quebrado apenas pelo som do biscoito sendo mastigado por Sibila, outra vez, enrijecida.

─ Como assim? ─ desta vez, o rei riu, visivelmente incrédulo. ─ Leonardo de Mattos… o Léo, é isso?

─ Infelizmente, Vossa Majestade, é deste que falamos. ─ o padre tornou sua expressão  séria, embora se esforçasse em expressar alguma solidariedade.

Para Eduardo, a ficha parecia cair aos poucos.

─ Como poderia o meu primo se envolver numa situação dessas? ─ ele já não fez mais rodeios, embora mantivesse um tom de desdém. ─ Patrocinou os manifestantes, é isso?

─ Senhor, ele é um dos que estão organizando um golpe de Estado cujo objetivo é destituir a monarquia e fundar um novo país, fazendo fronteira com o Brasil e o Paraguai. 

A respiração de Eduardo mudou repentinamente. Seu olhar fixou-se no de padre José e só migrou quando voltou-se para encarar Sibila.

─ E por qual motivo você está aqui? ─ a aspereza quase não contrastava com o rapaz de antes, apenas o arranhão no som da fala denunciou o choque vivido.

─ Eu acompanhei os passos mais recentes de Leonardo e fui eu que identifiquei ele como uma peça fundamental no projeto do golpe de Estado. ─ ela vomitou as palavras, transformando o seu olhar inseguro em rocha.

─ E como você fez isso? ─ Eduardo perguntou, enquanto suas sobrancelhas travavam uma luta para saber qual se sobressairia diante da ofensa insistente e deselegante.

─ Algumas atitudes correspondem ao modo de ser do Leonardo. ─ Sibila informou, mantendo o seu olhar que, finalmente, confirmava a teoria de que poderia intimidar até mesmo um rei. 

─ Você tem que saber bastante sobre ele para conseguir fazer isso… ─ e, com olhar desconfiado, lutando para erguer apenas uma sobrancelha, perguntou. ─ Como você sabe tanto sobre ele?

─ Ah… ─ de repente, Sibila mudou por completo. Desfez sua dura postura, desviou o olhar para encarar a janela e, em seguida, uma pequena pinta disforme pouco acima da abertura.

─ Acho melhor deixarmos essa questão de lado. ─ Vicente falou, quase suspirando o recado.

Quê? ─ o rei protestou, tão desconfiado quanto jamais estivera. ─ Eu preciso entender por qual motivo eu deixaria rolar a cabeça do meu primo! Eu nunca vi esta mulher na minha frente. Como eu posso confiar nela?

─ Você já me viu, sim… Vossa Majestade.  ─ Sibila respondeu com secura, encarando o rapaz outra vez e exibindo um sorriso ainda mais seco na tentativa de demonstrar simpatia. ─ Só que era pequeno demais pra lembrar que montava na minha garupa no Solar de Santa Maria.

Sibila! ─ o padre José chiou, dispensando um olhar reprovador para a mulher.

─ O garoto precisa saber, padre! ─ e, com isso, voltou-se novamente para Eduardo. ─ Eu namorei o Léo por sete anos. Nos últimos quatro, você era uma figura muito presente.

O olhar de Eduardo dizia tudo. E tanto era tudo, que poucos entenderam o que se passava de fato em sua mente. Repentinamente, tudo pareceu passar, como se uma tempestade tivesse encerrado seu sopro furioso sobre uma pequena floresta, então Eduardo respirou profunda e lentamente, fechando os olhos e girando sua cabeça para que ficasse de frente para Vicente. Então, abriu os olhos novamente e não disse coisa alguma por um longo período, encarando seu conselheiro.

Por sua vez, o padre e juíza respiravam um ar rarefeito, dando a entender que, de um lado e outro da mesa, era possível escalar do pé ao cume do Everest. Então Vicente falou, olhando de José para Sibila:

─ Vocês dois, por favor, esperem fora da sala por um momento.

Os dois puseram-se de pé e, imediatamente, as portas que davam para o corredor foram abertas por duas figuras pouco discretas, de uniforme em azul e dourado e escutas penduradas nos ouvidos. Foi um dos dois que indicou um banco – mais parecido com um sofá azul e dourado – pouco abaixo de uma grande janela onde os convidados deveriam esperar a boa vontade do Rei.

Do outro lado das portas, Eduardo e Vicente iniciavam uma conversa.

─ Eu não acredito neles. ─ disse o rei, desafiando Vicente a falar mais.

─ Veja bem, Majestade, os dois não estão sozinhos nessa… ─ ele sequer pôde concluir sua fala e foi interrompido por Eduardo.

─ Eu estou vendo isso. ─ o rei disse, exibindo um olhar cada vez mais próximo de um deboche. ─ Você está fazendo todo o possível para que esses dois não saiam daqui de mãos vazias!

E os dois se encararam, avaliando-se mutuamente. Finalmente, Vicente tomou coragem e prosseguiu com sua fala.

─ Eles não querem enganar o senhor… ─ então, reformulando sua frase, continuou. ─ Nós não queremos te enganar. Ao contrário: queremos que o senhor conheça a verdade que pode desfavorece-lo.

─ E vocês fazem isso acusando um dos membros da Família Real de traição? ─ a descrença estampada no rosto de Eduardo ficava cada vez mais óbvia, assim como sua irritação.

─ Acho que o senhor precisa ver algo com os seus próprios olhos. ─ Vicente disse, convencido da ineficácia de suas palavras.

─ Ver o quê, Vicente?

─ Uma coisa sobre a qual o país inteiro está comentando. ─ Vicente prosseguiu, remexendo seu bolso a procura de seu smartphone. Com ele em mãos, buscou até encontrar a imagem de Pedro com seu amante logo abaixo da manchete de uma reportagem que questionava, entre outras coisas, a identidade do homem misterioso. Então, mostrou-a para o rei, que leu em silêncio.

─ O que eu estou perdendo? ─ Eduardo evidenciou o que sua expressão já dizia por si. ─ Não estou entendendo o que você quer que eu veja, Vicente.

─ Eu quero que o senhor me diga quem é esta pessoa junto do prefeito de Vale Alberione. ─ disse Vicente, encarando o rei com uma expressão desafiadora. ─ O que o senhor vê?

─ Os dois amantes… ─ Eduardo estava decepcionado. ─ Vicente, você fuçou tanto nesse telefone para eu ver uma imagem que eu já vi?

─ Sim e não, senhor. ─ Vicente respondeu, olhando para o rei com visível expectativa. ─ Eu te mostrei essa imagem, senhor, para que Vossa Majestade veja claramente o seu primo e o prefeito de Vale Alberione estampados em um outdoor na capital.

Ãh? ─ o olhar de horror prevaleceu no rosto de Eduardo, misturando-se com o da confusão. Ele olhou novamente para o vexame reluzente a poucos centímetros de sua face. ─ Não é possível…

Contudo, lá estava. Aquela imagem, mas, sobretudo, aqueles detalhes. Eduardo conhecia aquela mão, era verdade, e aquele pedaço de pescoço não lhe era estranho. Um frio intenso, misturado à sensação de enjoo desorientou o rei por alguns instantes, que vacilou no olhar e, repentinamente, congelou em sua cadeira.

─ Mande que entrem! ─ Eduardo ordenou, já relativamente descansado após seu susto, embora ainda duvidoso. Afinal, quantas vezes havia reparado nas mãos ou no pescoço de seu primo?

Sentados no sofá azul e dourado, Sibila e José encaravam a pintura de uma jovem medalhista olímpica em seu momento de glória, ao saltar do alto de um trampolim. Em seu peito negro, a medalha parecia marca de fábrica, exibindo a primeira de ouro conquistada pelo país em uma Olimpíada. Foi colocada ali pelo tio de Eduardo.

Finalmente, o som tão esperado soou e as portas abriram-se novamente para os dois. Nervosos, entraram ainda menos confiantes que antes e deram de cara com um jovem rei visivelmente perturbado.

─ Eu preciso de uma explicação coerente. ─ o olhar perturbado transitava de Sibila para José com a clara intenção de encontrar abrigo seguro. ─ Como isso pode ter partido de dentro da minha própria família?


Imagem de destaque: William Daigneault no Unsplash.

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