Episódio dois: “Novas perspectivas”

A gravação do testemunho parcial de Pedro estava encerrada. As quatro pessoas que o acompanharam naquela ação, aos poucos, deixaram o quarto exclusivamente para o prefeito.

Sozinho, ele mexeu os dedos sobre o lençol branco de pano grosso. Estava inquieto. Deu um pulo e estava em pé ao lado da cama. Já sofrera surras piores, aquilo pouco o incomodava, exceto por uma forte dor de cabeça oriunda do lado onde levou o chute que o nocauteou na tarde do dia anterior e pela dificuldade de respirar devido a uma sensação esquisita e dolorida em suas costelas do outro lado.

Olhando para fora  da janela, via uma pequena parcela de um jardim desocupado. Decidiu trocar-se. O conjunto de pijamas do hospital logo estava no chão, amontoado. Pedro vestia um calção de futebol bastante folgado e confortável. Já vestia uma camiseta branca muito leve quando percebeu que alguma coisa se escondia atrás de um vaso de flores que lhe fora enviado anonimamente, ou seja, por Leonardo de Mattos. Terminou de colocar a camiseta.

A caixa era preta. Um canto amassado fez Pedro entender que se tratava daquela que ele estraçalhou contra a parede dias antes, quando soube da morte de Richard Steward. Ao perceber o gesto delicado e atencioso de seu amante, sentiu-se brevemente constrangido. Nas bochechas, um calor confirmou a situação. Pegou a caixa, sabendo que, dentro, encontraria o anel que ganhara de Leonardo. Abriu-a e sua expressão mudou por completo.

O rubor em suas bochechas sumiram aos poucos, no mesmo ritmo em que seu sorriso dava lugar ao desgosto. Seu rosto iluminado apagou-se em puro enjoo. De repente, foi como se Pedro tivesse sido sugado por uma máquina ultra moderna e carregado daquele quarto de hospital para uma cena há muito vivida e cujo esquecimento era desejável e, talvez, saudável. Como resultado da viagem psicológica, seu estômago sucumbiu.

Colocou a caixa sobre a mesinha outra vez e afastou-se lentamente, como se temesse uma reação violenta caso andasse rápido demais. Sua cabeça pesou. Lançou o braço para trás, na tentativa de apoiar-se na parede que se encontrava muito distante e caiu de bunda no chão, bateu com as costas na beirada da cama e virou-se para o lado para vomitar, mas nada fugiu de seu estômago. Pondo-se de quatro, engatinhou até o vaso sanitário, onde, finalmente, viu o pouco que comera ser jogado na privada.

Permanecendo abraçado ao vaso sanitário, em sua mente, esnobando o que via no plano real, sua memória o forçava a transitar entre duas imagens: na primeira, sua esposa estendia a mão esquerda para receber uma aliança dourada cravejada de pequenos brilhantes. Era o dia de seu casamento. Na segunda, o conteúdo da caixinha preta que recebera de seu amante: não mais o anel prateado de dias antes, mas uma aliança dourada cravejada de pequenos brilhantes. A aliança, que um dia foi ostentada por Daniela, sumiu misteriosamente no dia em que ela sofreu o acidente que ceifou sua vida. Foi o único objeto não encontrado.

Da pior maneira possível, Pedro ligava os pontos que o levaram a entender quem roubou a aliança de sua esposa e, pior de tudo, quem roubou a vida dela. De um minuto para outro, aquele que foi seu amante passou a ser seu pior inimigo.

Pedro gemeu outra vez e começou a chorar, largando-se do abraço ao sanitário, deixando seus braços caírem sobre suas pernas. Por um longo período, permaneceu jogado ao chão, naquela estranha posição torta.

Já não sentia mais dores. Ao menos isso ele dizia para si próprio. Já estava em pé havia alguns minutos, durante os quais o choro o abandonou e o vômito foi lavado do banheiro. De dentes escovados e cara erguida, Pedro rumou ao quarto outra vez. Sua mente voltou a funcionar quase normalmente e, por isso mesmo, apenas uma coisa lhe era certa: o anel não foi um presente, mas uma ameaça. Um recado muito simples. De qualquer forma, precisava sumir daquele quarto.

Pegou a caixinha preta novamente e, antes de pegar o anel, percebeu um pedacinho de papel amassado. Vestiu a aliança, que ficou entalada na metade de seu dedo mindinho, e espiou pela janela, querendo fugir por ali. Desamassou o bilhete e leu-o: “gostou do meu presente na estrada?”. Naquele momento, no entanto, alguém bateu à porta e entrou.

─ Senhor Prefeito! ─ disse o médico simpático.

─ Boa tarde, Doutor! ─ Pedro respondeu.

─ Vim apenas para avisar que eu estou te dando alta e que o senhor poderá ir para casa assim que estiver à vontade.

Um sorriso largo e ensaiado preenchia aquele rosto. Só não era mais ensaiado que o do próprio Pedro. E o médico fechou a porta atrás de si, estreitando os olhos e desfazendo o sorriso.

─ O que foi, Pedro?

─ Como assim, Dr. Ulisses? ─ Pedro forçou um sorriso ainda maior.

─ Eu não me refiro nem ao sorriso falso, mas a essa cara branca e esses olhos vermelhos… ─ e parou de supetão, cravando o olhar no mindinho de Pedro.

─ Não há nada com o que se preocupar, Doutor. ─ o paciente garantiu. Sua mão recolheu-se às suas costas.

Um olhar relutante arrastou-se para o rosto de Pedro, outra vez. Ainda intrigado, fez o jogo do contente.

─ Deve ser o estresse. ─ mentiu. Outro sorriso mecânico, e dava as costas para Pedro, o mentiroso.

Foram rápidos os arranjos do senhor Pedro e tudo estava pronto. Mochila feita, papelada assinada, paciente de alta – um pouco rengo, é verdade, mas de alta.

─ O carro do senhor está esperando ali na frente da porta de entrada, senhor Prefeito. ─ aquela moça sorriu, como se desse a melhor notícia do ano para Pedro. Ele certamente não concordou.

─ É… Hum. ─ coçou a cabeça e entortou o rosto. ─ Carro, é?

─ Sim, o gabinete enviou um para que o senhor não se preocupasse com táxi. ─ e ela sorriu ainda mais. O ar de vitória confirmava que dava a notícia em primeira mão.

─ É claro… ─ Pedro falou tão baixo que ela quase pensou que estivesse triste ou, pior, desapontado.

─ Algum problema, senhor Prefeito? ─ rapidamente ela perguntou.

─ Jamais! ─ ele estava apavorado.

Agarrou uma das alças da mochila e seguiu, disfarçando o descontrole que percebia em suas pernas. Aproximou-se da porta e deu de cara com um de seus carros e um homem muito feliz à sua espera, pronto para abrir a porta do carona. Deu graças a Deus por, ao menos, a imprensa não ter sabido da alta.

 ─Senhor. ─ aquele homem, feliz demais para a opinião de Pedro, indicou o assento de couro de seu próprio carro como se quisesse ensiná-lo a  entrar no veículo.

─ Vou sozinho, não preciso que dirija para mim. ─ Pedro respondeu, rapidamente, em tom de ordem, desconhecendo os olhares visivelmente escandalizados do povo ignorante ao seu redor.

─ Faço questão, senhor… ─ o homem desconhecido ia iniciando, mas foi interrompido por um Pedro extremamente mal humorado.

 ─ Eu disse que vou sozinho! ─ e fechou a cara, embora tremesse por dentro. ─ Você, vá de táxi para onde quiser, menos para a minha casa!

─ Ora, senhor… ─ o estranho falou, enquanto aproximava-se de um Pedro fujão. Segurou com força um ombro de Pedro de forma a controlá-lo.  ─ Nenhum de nós irá para a sua casa hoje. Fique tranquilo.

─ Não me interessa aonde você vai… ─ resmungou Pedro, lutando, ainda mais apavorado.

─ Vamos ver alguns anéis de brilhante?

E Pedro perdeu o controle de suas pernas. Um tropeço e um estardalhaço. Ele estava de cara no chão, sendo acudido por um estranho que queria dirigir seu carro e levá-lo para um lugar estranho para falar… de Dani.

Momentos depois, consciente da insignificância de seus protestos diante de sua aparente enfermidade, estava dentro de seu carro, conduzido por um homem estranho de sorriso diabólico no rosto para um lugar que ele não sabia qual seria.

Se Pedro sacudia por uma rua ordinária de Vale Alberione, Eduardo sacudia por uma via expressa de horrores, guiado por um conselheiro, uma juíza e um padre.

Finalmente, a longa conversa dos quatro esclareceu o assunto para o monarca. A partir dali, soube da relação de Leonardo de Mattos com os separatistas, o uso do prefeito de Vale Alberione, algumas das mortes com as quais seu primo se relacionava e outras que eram diretamente consequências de suas ordens.

─ Meu Deus! ─ Eduardo não parava de repetir, mais para si que para os outros. ─ Meu Deus!

─ Isso tudo, certamente, é muita coisa para absorver, senhor… ─ Vicente falou num tom bastante baixo.

─ Mas…? ─ Eduardo entendeu e encarou seu conselheiro.

─ Mas, temos uma situação urgentíssima que precisa de ação imediata ─ o conselheiro continuou. Diante da atenção do rei, prosseguiu ─ O delegado Júlio Finora, do Primeiro Distrito da Guarda Nacional, que é o link entre Leonardo e os separatistas e quem mantém a identidade do conde secreta… Bem, temos motivos para crer que ele está no meio de uma tentativa de eliminar os três amigos de Richard que testemunharam o atentado ao rapaz.

─ E o que você sugere? ─ um brilho estranho surgia no fundo dos olhos de Eduardo.

─ Ah… ─ Vicente continuou, pela primeira vez encarando Pe. José e Sibila como quem pede amparo. ─ Acredito que a intervenção do senhor seja possível apenas através das Forças do Rei.

Houve um minuto de tensão no ar, em que a ideia pareceu simplesmente absurda demais para que não se esperasse por uma correção da parte de Vicente. Um piscar de olhos confuso de Eduardo e ele abriu a boca.

─ Vicente, você está louco? ─ ele perguntou com extrema naturalidade.

─ Não, senhor. ─ Vicente viu-se pego de surpresa pela pergunta.

─ Mas, como é que eu vou usar as Forças do Rei numa hora dessas, sem ter prova alguma disso que vocês me passam…? ─ e Eduardo ergueu as mãos, defendendo-se da ideia. ─ Vão achar que eu sou o Rei Louco do século!

─ Na verdade, senhor… ─ Sibila surgiu na conversa novamente. ─ Existem provas para incriminar estas pessoas.

E todos fixaram seus olhares em Sibila, pela primeira vez de forma unânime, confusos. 

─ Mas o uso delas se dará num processo que, com certeza, será longo e escandaloso. Além do mais, não compõem exatamente um arquivo completo ideal para este tipo de problema.

─ Então de que serve tudo isso, Sibila… ─ ia interrompendo Vicente, mas foi cortado.

─ Contudo, acredito que haja uma forma de intervir neste episódio específico sem que um escândalo seja iniciado. ─ e um brilho maroto que cintilou nos olhos de Sibila, brilhou também nos de um Eduardo vingativo.


Embora Christopher – assim como o restante de seus amigos – ainda não soubesse o que havia acontecido a Eugênio, a chegada de dois carros e uma caminhonete, todos brancos, com os símbolos da Guarda Nacional em frente à sua casa não foi exatamente uma surpresa. Vários corpos plenos de autoridade saltaram dos veículos. As expressões deles eram de poucos amigos, a de Christopher, era de pouca esperança.

Surpreendente, no entanto, foi a capacidade que Christopher teve de mexer-se, mesmo sentindo aquela estranha falta de esperança, aquela estranha entrega e pouca vontade de lutar. Saiu de frente da janela e direcionou-se à porta de seu quarto, onde passava a maior parte de seu tempo nos últimos dias. Abriu-a para dar de cara com sua mãe, Janice. Verdade: os dois pareciam ter a mesma sensação em relação àquela visita da Guarda Nacional, contudo, sua mãe parecia estar pronta para uma guerra.

─ Venha comigo! ─ ela quase sussurrou, agarrando um pulso do rapaz, enquanto cinco socos balançavam a porta de madeira da frente da casa. ─ Não vamos deixar que façam isso contigo, filho… De jeito nenhum! 

Ela parecia nervosa, enquanto arrastava Christopher. Quanto ao rapaz, espanto era a descrição perfeita para o que se via em seu rosto. Protesto descrevia a resistência de suas pernas ao esforço de sua mãe, uma mulher obscurecida por um olhar insano.

─ CHRISTOPHER LASTER! ─ berrou um homem do lado de fora da entrada principal, fazendo vizinhos curiosos saltarem de suas casas. ─ TEMOS UM MANDADO DE PRISÃO! ABRA A PORTA OU VAMOS ARROMBAR!

Mãe! ─ ríspido, Christopher sussurrou, segurando o pulso de sua mãe que tentava, em desespero, fazê-lo descer as escadas rumo à cozinha o mais rápido possível. ─ Eles não vão me fazer… eles não podem me fazer mal. A senhora sabe…

Era possível ouvir nitidamente os passos pesados dos homens dando a volta na casa, impossibilitando qualquer rota de fuga.

─ Entre o que eles podem e o que eles vão fazer existe muita diferença, filho… ─ Janice suplicava, com todas as forças, tentando arrastar o seu filho.

─ Janice! O que você pensa que está fazendo, mulher…! ─ Jonathan Laster apareceu, não se sabe de onde, com expressão escandalizada, separando a esposa de seu filho, mas foi interrompido por um estrondo.

BLAM!

A porta foi escancarada com tanta força que bateu na parede e voltou, acertando um dos policiais que já entrava na casa pela cozinha e vasculhava a procura do perigoso Christopher. 

Os três membros da família olharam horrorizados para baixo, enquanto uma Rebeca Laster aparecia ao pé da escada completamente apavorada. Na porta da frente, o gesto se repetiu, embora, pelo peso próprio da porta, esta não chegou a retornar para dar na cara do policial. Deixando cair um celular enquanto tentava tapar os ouvidos, Rebeca jogou-se no chão, encolhendo-se quase em posição fetal.

MAS O QUE É ISSO? ─ urrou Janice, agarrando-se ao corrimão a meio caminho de socorrer sua filha. O rosto desfigurado lançava ares de loucura na mulher de 49 anos.

Em meio àquilo tudo, Jonathan, arregalando os olhos a meio caminho do estado de choque, deu meia volta e segurou firmemente o bíceps esquerdo de Christopher. Deixou seu olhar penetrar o do filho e, sem dizer uma palavra, os dois iniciaram a descida pela escada, lívidos, como se com movimentos físicos controlados por uma força exterior.

Ao pé da escada, os homens e mulheres de preto que desceram dos veículos pareciam nem notar Janice e sua filha, afastando-se encolhidas para um canto da sala, onde havia um sofá, tampouco a boa vontade ou mesmo o evidente estado de choque dos homens que desciam os degraus. 

Com sutileza animalesca, agarraram Christopher, balançando um pedaço de papel com tanta habilidade, que sequer as letras garrafais que identificavam o órgão emissor poderiam ser lidas. Com um movimento brusco, afastaram Jonathan de seu filho, lançaram Christopher de encontro à parede, puxaram seus braços para trás dolorosamente e o algemaram. Instantes depois, enfiaram o rapaz no banco de trás de uma das viaturas.

Uma porta se fechou. Pessoas de preto, numa agilidade impressionante, sem notar o evidente peso de seus uniformes, em poucos instantes estavam todas em seus lugares, iniciando a viagem de retorno ao Primeiro Distrito da Guarda Nacional, em Aurora, deixando três pessoas apavoradas para trás.

A viatura permitiu a Christopher experimentar, pela primeira vez, a falta de conforto em algo projetado para ser o melhor no quesito. Aos poucos, a sensação de choque dava lugar a um forte embrulho no estômago.

Em frente à casa n.º 57, Jonathan, Janice e Rebeca eram consolados por vizinhos que abandonaram suas casas e os preparativos da ceia de Natal para dar amparo à família. Todos concordavam entre si, embora nada fosse dito aos Laster, que a prisão realizada numa véspera de Natal era a atitude mais absurda e sem coração de um governo.


As ordens enviadas diretamente do Palácio Real jaziam impressas sob uma mesa metálica do gabinete do Chefe do Departamento Nacional de Segurança Pública, o Almirante Ferro-Filho. Havia alguns minutos desde que as ordens foram colocadas em práticas para uma eficaz realização, como o almirante certamente descreveria.

Naquele mesmo instante, doze veículos do Exército haviam saído às pressas, tendo por destino a interceptação do comboio enviado para o cumprimento do mandado de prisão das testemunhas do atentado a Richard Steward. O grupo destinado ao Distrito havia recém chegado ao seu destino.

Júlio Finora tinha uma mão apoiada numa estante repleta de cacarecos e algumas pastas perdidas. Falava ao telefone com evidente senso de urgência. Na testa, o vinco era perceptível, porém, o maior estresse se encontrava em seus lábios.

─ …e, antes que eu apareça aí, encontrem eles! ─ ele sibilou, por fim. Pôs-se a escutar um “Sim, senhor” mal-humorado e continuou. ─ Ao menos sabem se eles estão com a mulher?

“Acredito que sim, senhor” respondeu a voz pouco feliz, “Alguns locais dizem que os viram entrar no carro dela. Mas não fazemos ideia de para onde podem ter ido…”

Então, pelo canto de olho, Júlio viu aquele uniforme verde-escuro malhado surgir aos poucos e multiplicar-se dentro de sua delegacia. O tempo era curto e não podia ser desperdiçado. Discretamente, como se não notasse a presença dos militares à sua procura, desligou o telefone e chamou novamente.

─ Zuccha! ─ seu tom era grave e sua voz soou limpa, exceto por uma leve nota de temor, talvez urgência. ─ Eles chegaram e não podem ter ninguém. Dê jeito no rapaz.

Bateram à porta e entraram. Júlio desligou o telefone. O olhar surpreso e seu rosto iluminou-se com um sorriso bem preparado.

─ Boa tarde, boa tarde! ─ ele saudou a tropa, convidativo.

As cadeiras foram oferecidas para ninguém que quisesse sentar.

─ Delegado! ─ soou uma voz feminina pouco afetuosa, quase mecânica. ─ Precisamos que o senhor venha conosco.

─ Ah, sim! ─ Júlio sorriu ainda mais. ─ Quem não precisa. Não fossem vocês, pensaria que se trata de uma perda de tempo.

Ninguém esboçou qualquer reação e Júlio finalmente compreendeu estar diante do pessoal das Forças Armadas, os puxa-saco do rei.

─ Evidentemente, eu não quero problemas com o chefe, então, por favor, vamos direto ao assunto. ─ disse, erguendo as mãos numa encenação forçada de rendição e seguiu para frente, mas foi barrado por um braço decidido.

─ Deixe todos os dispositivos que carrega consigo, delegado. ─ o aviso sutil foi extremamente decidido e, em instantes, o celular de Júlio era depositado sobre a mesa e seu corpo inteiro foi apalpado por mãos hábeis, porém, específicas. Sem mais dispositivos consigo, finalmente Júlio foi guiado com gentileza pelo grupo que o intimidava.


Muito desconfortável, Christopher Laster sentiu mais uma curva da estrada jogá-lo para cima daquele rapaz pouco simpático à sua esquerda. Ainda assim, fazer uma curva para o outro lado não o deixaria menos insatisfeito, uma vez que daquele lado mirava-o uma moça que parecia ainda mais infeliz que ele próprio. Nos bancos do motorista e do carona, outros policiais guardavam-no em seu trajeto rumo à capital. À frente de sua viatura, uma caminhonete e outra viatura o escoltavam e, atrás, apenas uma caminhonete preta que, como pudera notar quando fora arrastado de sua casa, era ocupada por Priscila Zuccha e Tomás Belizário, os únicos conhecidos de sua jornada anterior à Delegacia em Aurora.

O movimento constante de lá pra cá e de cá pra lá, somados ao seu prévio embrulho no estômago o faziam cada vez mais próximo de uma sessão de vômitos, até que, depois de uma curva particularmente longa, a moça ao seu lado resmungou para o rapaz do outro lado.

─ Isso aí tá ficando perigoso. ─ aquilo foi em tom de aviso.

O policial do banco da frente, cujo rosto Christopher ainda não havia visto, deixou de mexer no celular e olhou para trás, parecendo preocupado.

─ Quê? Como assim?

─ Acho que ele vai chamar o hugo logo, logo. ─ ela respondeu, com expressão de nojo imaginado.

Nem bem terminou de falar isso e Christopher deu caldo à conversa, despejando um jorro de vômito exatamente por sobre a mão do carona, que apoiava-se sobre a base de seu próprio banco.

─ Ah, eu não acredito! ─ a moça disse, afastando-se de Christopher e encolhendo as pernas para fugir do jato. ─ Que nojo!

─ Bah, Marcelo, abre essa janela, pelo amor de Deus! ─ o rapaz do outro lado de Christopher suplicou, dando palmadinhas urgentes no banco do motorista, bem a tempo de o homem que recebeu o jato de Christopher em sua mão vomitar para fora. Embora tenha se esforçado ao máximo para fazer o jato ser expelido para baixo, não na horizontal, ainda assim alguns respingos voaram janela adentro, salpicando o rosto do moça já furiosa, agora transformada num leão.

─ MAS QUE PORRA É ESSA, HOMEM?! ─ ela vociferou, desferindo murros nas costas do banco à sua frente.

Talvez devido ao grito dela, talvez devido ao forte cheiro dentro do carro, o fato é que nenhum dos caroneiros percebeu que, de repente, o motorista vacilou, enfiou a cabeça no volante e o fez girar violentamente. No segundo seguinte estavam todos voando sem direção ou noção alguma. Antes que percebessem o voo repentino, estavam grudados aos bancos outra vez, cercados e golpeados por cacos de vidro, celulares e restos de vômito, até que portas fossem abertas e arrancadas do automóvel. 

Christopher, sem cinto de segurança ou controle sobre suas mãos, foi o que mais sofreu. Sentiu sua cabeça golpear ou ser golpeada incontáveis vezes, até que mergulhasse na escuridão profunda antes mesmo de o carro parar por completo, quase cem metros adentro de uma lavoura de soja, havendo deixado um rastro de destruição. Peças de metal, cacos de vidro e até mesmo um dos bancos foram algumas das coisas lançadas para fora do carro.

O policial que vomitou, surpreendentemente era o único ainda consciente. Balançou debilmente um dos braços, como se espantasse alguma coisa, então, seguindo o exemplo dos demais, desmontou sem perceber que estava de ponta cabeça, amarrado pelo cinto de segurança, encarando o rosto de Christopher, que jazia a um lado, deitado no teto amassado, quase beijando a testa do policial.



Imagem de destaque: Jason Edwards no Unsplash.

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