Episódio cinco: “Flores para os meninos”

Embora a nação estivesse, de certa forma, acostumada às tragédias e às fortes emoções em sua decorrência, os dias que se passaram à tragédia de Vale Alberione foram marcados por protestos e questionamentos públicos. Infelizmente, nem mesmo a evidente chegada de uma guerra civil foi superior à decepção do país diante do envolvimento tão direto de um membro – se não de todos, segundo alguns comunicadores sensacionalistas – da Família Real. Nem mesmo a chegada de um dia de céu azul estarrecedor foi suficiente para tirar da realeza o holofote vermelho-sangue.

Com esta atmosfera pairando sobre o reino, a princesa Letícia viu-se sozinha viajando para Vale Alberione, cruzando um céu que, com sua beleza, parecia revezar-se entre consolar e debochar dela. Como ela, muitas pessoas tinham a incrível e bizarra sensação de que o clima sabia do evento agendado para aquela manhã, três dias após o rompimento da represa.

Centenas de pessoas se reuniram em um espaço aberto pelos bombeiros em frente aos escombros da Igreja Matriz. Um palco de simplicidade meiga, decorado com muitas plantas e coroas de flores era cercado por outras tantas cores trazidas por pessoas em grande parte conhecidas entre si, e outras vindas de diferentes lugares, amontoando-se entre flores e doações.

Mesmo sendo um momento de união após uma tragédia, desgastados e temerosos pela possível guerra, poucas pessoas de fora da comunidade foram vistas naquele evento ou nos dias precedentes.

Ainda distante, o “zum-zum-zum” do helicóptero de Letícia começava a chamar a atenção do público cheio de expectativa, embora pouco alegre por vê-la. O desenho do helicóptero contra o céu tão limpo e azul logo se tornou mais claro e, à medida em que ia se aproximando, alguns movimentos em terra foram tomados para receber a realeza. Instantes depois, Sua Alteza Real, a princesa Letícia de Mattos arrumava nervosamente sua roupa preta uma última vez antes que sua aeronave estivesse em terra firme com a porta aberta por um soldado.

Abafado pela poderosa turbina do helicóptero, o falatório confidente só fez aumentar quando a princesa finalmente foi vista nos telões que transmitiam a cerimônia, descendo de um carro que a carregou até o local improvisado. O seu rosto exibia uma expressão já conhecida do povo e, embora raramente vista, lembrou-os de tempos não tão distantes. Evidenciadas pela roupa preta, olheiras profundas marcavam a sua pele, agora muito seca e opaca que, em circunstâncias outras, era considerada um patrimônio da beleza nacional por seu brilho sempre constante.

Rapidamente, no entanto, guiada por um homem elegantemente vestido de preto, a princesa seguiu seu caminho nervosamente entre um corredor de flores. Chegando à primeira fileira de cadeiras, cumprimentou, num aperto de mão, as famílias que, em grande parte, motivaram a existência do evento.

Letícia estendeu sua mão para cumprimentar os Brothwell, demorando-se particularmente em Sara, e os Steward, agora retornados de seu retiro de segurança.  Ela, então, se encontrou com o seu maior desafio do dia ao cumprimentar os Laster para, por fim, estender a mão a Marcelina, portadora de um rosto rígido e inflexível, sem trocar muitas palavras com a alteza.

Finalmente, Letícia foi convidada a sentar-se ao lado desta última para acompanhar a cerimônia.

Richard, quem iniciou toda história ao cruzar seu caminho com o romance de Leonardo e Pedro, agora olhava intrigado para a mão que acabara de cumprimentar a princesa. Surpreendendo-se, por um momento sentiu-se simpático à causa de seu inimigo, ao sentir o estômago embrulhar com nojo da realeza. Imediatamente em seguida, um novo embrulho se seguiu à percepção desta semelhança com quem quase o matou. Sentindo a mão de seu pai roçar de leve seu braço, olhou para o lado, constatando que aquele homem jamais deixaria de captar qualquer sinal envolvendo seu filho.

Alguns assentos para o lado, Sara segurava delicadamente a mão de seu irmão Matias, com quem passou a angustiante experiência de ser dragada e resgatada miraculosamente dentre os destroços da cidade, distantes um do outro apenas oito metros. Ainda sentia dores por todo o seu corpo. Ambos carregavam pontos em várias partes de seus corpos, cabendo a Matias um braço inteiro engessado além da bota ortopédica, item utilizado também por Sara.

Os três Laster, Jonathan, Janice e Rebeca, compartilhavam uma dor comum. Estranhamente, cada um por si em seus casulos, os três se encontravam, unidos por uma dor que atravessava os espaços. Ao lado dos três, em um mundo completamente à parte, Marcelina erguia sua cabeça para acompanhar mais uma despedida de alguém que amava profundamente. Navegava entre recordações confusas, migrando de Dani para Eugênio, em uma travessia perigosa de seu luto. Não raro, se via girando em redemoinhos de ódio, de revolta ou simples falta de entendimento de qualquer coisa, até mesmo da realidade. Letícia firmava os lábios e os olhos, controlava a garganta no esforço brutal para desfazer o nó incômodo ali instalado.

Assim como a noite da cantata de natal, o evento teve início com um canto do coral municipal, fazendo entrar os caixões de Eugênio Rodrigues e Christopher Laster. Não foi missa nem culto, mas um momento simplesmente intitulado “Celebração de despedida”. Houve música, discursos, meditações em que um velho e querido padre da comunidade e uma jovem e querida pastora tomaram a palavra para enaltecer os fiéis dos quais eram pastores, silêncio, choro e, ao fim, um momento inesperado.

Com a mesma expressão que carregava ao descer do helicóptero, Letícia olhava para uma pequena multidão, ciente de que àquela uniam-se milhões de outras pessoas ao redor do país. Firmou suas mãos, agarrando discretamente a borda mais escondida do púlpito, e falou.

─ Vocês sabem bem, pois são testemunhas, de como eu tenho alguma ideia de pelo que vocês estão passando… Sobre isso eu nem sequer gostaria de falar muito, apenas dizer que estou unida pela minha fé e minha consciência a cada um de vocês que se despedem desses homens incríveis, especialmente às famílias. ─ ela respirou profundamente e prosseguiu. ─ O motivo pelo qual subi a este púlpito – algo que eu não faço – é um gesto simples, porém necessário… Uma decisão que tomamos eu e Sua Majestade, meu filho, assim que soubemos, com maiores detalhes, o ocorrido nesta pequena cidade ao lado de nossa casa.

Uma grande tensão percorreu a praça tomada por gente. A atitude inusitada era assimilada aos poucos.

─ Embora o gesto não trate de um posicionamento que será tomado pela Justiça, decidimos por bem e justo reconhecer que, em meio a este atentado, houve pessoas que lutaram bravamente por essa cidade, por vocês, por nosso país inteiro, revelando-se pessoas portadoras dos valores mais prezados pela Família Real, incluindo fidelidade ao monarca. Por isso esse cerimonial, organizado em conjunto com os poderes privados e público. ─ ela disse, baixando a voz a cada sentença. Então, retomou o ar e o vigor e continuou. ─ Essa não é uma cerimônia corriqueira. É uma cerimônia dedicada a heróis da nossa pátria. Por isso, nessa data eu comunico que o nosso Reino reconhece os sacrifícios do delegado Eugênio Rodrigues, de Matias Brothwell e de Richard Steward através da concessão da alcunha máxima de Cavalheiros de Sua Majestade.

O quê?! ─ chiou alguém, logo atrás do próprio Richard, completamente estarrecido. A este alguém, muitos outros se uniram em cochichos e comentários surpresos, até mesmo espantados.

Letícia, sem tomar nota, retomou seu discurso.

─ No lugar de Sua Majestade, serei eu quem conduzirá as honras. ─ e deixou o púlpito ao som de uma salva de palmas vindas de uma multidão em pé. Ela prosseguiu, como se sem notar o rugir da multidão, até algumas pessoas que apareceram sorrateiramente com uma espada e uma bandeja sobre a qual três pequenas caixas em azul escuro se apoiavam.

Letícia pegou a espada com a mão direita e prosseguiu em direção à cabeceira dos caixões já fechados. Com a espada, tocou em cada lado dois caixões, depositou uma rosa branca sobre cada um deles, e fez uma reverência completa, dobrando os joelhos e baixando a cabeça diante de cada um dos mortos.

Enquanto tudo isso acontecia, Richard era chamado por um militar cuja patente o garoto não saberia dizer qual era, nem mesmo à qual das forças pertencia. Apenas respondeu positivamente sem dizer palavra alguma, balançando a cabeça, sem ter certeza de que fazia a coisa certa. Não viu a reação de seus pais nem mesmo as de seus amigos e dos pais deles. Simplesmente seguiu até que, de repente, se encontrava diante da princesa.

Diante dela, foi como se um soco em seu estômago o tivesse chamado de volta à realidade. Aqueles olhos profundos eram inconfundivelmente os olhos de quem sofria. E ele sabia disso por si mesmo. No sorriso discreto, o esforço para o ato não o fez menos sincero e Richard conseguiu devolver, sentindo-se estranhamente afagado.

─ Você aceita o chamado do rei para ser seu cavalheiro? ─ Letícia perguntou, mantendo o sorriso. 

─ Sim. ─ Richard permitiu que a palavra escapasse de sua boca sem que ele mesmo desmontasse no ato. 

O militar cochichou um “Apoie o joelho no chão” e Richard colocou-se completamente ajoelhado, ao que a princesa fez pouco caso. Em seguida, sentiu o aço da espada tocar-lhe os ombros. Em pé, recebeu da princesa uma das caixinhas azuis, dentro da qual encontrou uma medalha presa a uma fita. Era um cavalheiro.

Após Richard sentar-se em seu lugar novamente, Letícia dirigiu-se aos pais de Matias, com quem conversou rapidamente enquanto entregava as medalhas do título póstumo, ato que se repetiu diante de Marcelina.

Passada a comoção, enquanto a cerimônia era declarada encerrada, Letícia apoiou sua mão sobre o pulso de Marcelina e pediu que a seguisse. Quando a princesa deixou o local, saudou uma última vez as famílias e o novo cavalheiro e deteve-se diante de algumas das mensagens deixadas junto das flores até que, finalmente, desaparecesse dentro de uma tenda improvisada do Exército, onde conversou em particular com Marcelina.

Muito longe da esquisita situação em Vale Alberione, Leonardo deixava surgir um sorriso frio e maligno. Deitado em uma cama simples de um hospital do Exército, sentia-se estranhamente reconfortado pelo fiasco na pequena cidade. A vergonha de Letícia causava uma excitação esquisita no homem de meia idade.

No entanto, um enorme cansaço o perseguia, desde o episódio na represa, cinco dias atrás. Seu pulso preso à guarda do leito hospitalar recordava-o constantemente de que aquilo não era um sonho. Realmente aconteceu. Ele realmente havia colocado abaixo aquela represa e feito lavar metade da cidadezinha. E havia, também, matado Pedro.

Aliás, familiares de Pedro conseguiram uma cerimônia para despedir-se dele. Ainda assim, cremaram o homem, mesmo sendo contra a sua vontade expressa em vida, jogando suas cinzas no que sobrou de sua propriedade rural, também levada pelas águas. Assim, não se deram o trabalho de pensar muito sobre ele.

Subitamente, enquanto observava Letícia cumprimentar um homem particularmente alto, uma agulhada acertou o lado de trás da cabeça de Leonardo, fazendo-o, por um momento que poderia ter sido minutos, deixar de lado suas preocupações mesquinhas. O momento foi rápido, ele percebeu, não havia seguido por mais de dez segundos: Letícia recém havia cumprimentado Richard, a pessoa em seguida ao homem alto, enquanto deixava a cerimônia.

Virou-se na cama, sentindo-se limitado pelas algemas que o prendiam à cama. Deitou sua cabeça, mirando o teto. Fechou os olhos e respirou profundamente inúmeras vezes, sem que, no entanto, dormisse. Como se gravadas a fogo em sua retina, ainda via com clareza perturbadora a chamada: “VERGONHA NACIONAL: FAMÍLIA REAL ENFRENTA NOVA DESGRAÇA”. Vergonha nacional… 


Imagem de destaque: Mink Mingle no Unsplash.

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