Episódio três: “Uma questão de prioridades”

─ Vossa Majestade! ─ o tenente brigadeiro entrou apressado no gabinete do rei, carregando consigo uma pasta preta fosca com o símbolo da sua divisão brilhando em detalhe prateado.

─ Tenente… ─ era visível o estranhamento da parte do rei. Até então, o tenente brigadeiro Almeida jamais havia encontrado motivos para entrar daquele jeito no gabinete de Eduardo.

─ Temos informações das Forças do Rei… ─ e então, Almeida pareceu suspender o ar.

─ O que foi, tenente?! ─ a pergunta em tom de ordem deu conta de expressar a impaciência de Eduardo. 

─ Eu preciso que o senhor venha conosco.

─ Por qual motivo?

Com a mesma discrição de tenente brigadeiro Almeida, entrou gabinete adentro Sua Alteza Real a princesa Letícia. 

─ Mãe? ─ preocupado e confuso, Eduardo encarou sua mãe. ─ O que foi…?

─ Pensei que você me daria a resposta. ─ ela tratou de responder com rapidez, sem chegar a ser grosseira. Então, dirigiu-se para o tenente. ─ Por que estamos aqui?

─ Nós precisamos da senhora, princesa Letícia. ─ Almeida disse, visivelmente nervoso. Sem mais tempo a perder, indicou uma cadeira para a alteza e, de frente para o rei, sentou-se também ele, continuou.

─ A situação está piorando e vai atingir em cheio a Família Real. ─ a informação foi despejada de uma só vez. ─ O conde do Vale trará uma repercussão enorme a partir de hoje a noite, senhor. Nada vai conseguir abafar o que acabamos de descobrir.

─ E o que foi de ainda mais grave que vocês descobriram? ─ Letícia permitiu soar sua aspereza. ─ E chame ele pelo nome, porque o título vai perder.

─ Leonardo pretende destruir a barragem de Vale Alberione.


Pouco tempo antes, quando a Divisão das Forças do Rei remexia os arquivos de Júlio, um arquivo delicado fora encontrado com a ajuda de um dos assistentes do delegado. Uma folha simples, sem qualquer símbolo ou organização identificável. A soldado que a encontrou passou rapidamente seu olhar por suas linhas e, o que parecia ser mais arquivo rotineiro, revelou-se uma bomba e peça chave para o desenrolar dos fatos em Vale Alberione.

Com o celular, imediatamente digitalizou o arquivo, enviando-o ao seu capitão que, por sua vez, fez chegar ao general de sua divisão.

Alguns quilômetros dali, próximo ao palácio do rei, o general Souza leu o documento e esfriou, conforme deixava sua atenção da tela por onde acompanhava o andamento da operação que ocorria na delegacia. 

Por algum tempo, pareceu ver tudo parar ao seu redor. Finalmente, chamou dois dos outros militares que o acompanhavam no andamento da operação, um general de brigada e um coronel, e mostrou o documento com urgência.

─ O rei precisa ser retirado de vista. ─ foi do coronel a primeira fala que soou.

─ Concordo. ─ foi a única coisa que o general de brigada disse. Então, olhou significativamente para Souza e inclinou rápida e discretamente sua cabeça.

Souza dirigiu-se a um telefone de linha direta, discou o número e rapidamente foi atendido.

“Tenente brigadeiro Almeida”, disse a voz áspera do outro lado da linha.

─ Sim. ─ suspirou, ainda nervoso, o general Souza. 

Após identificar-se e certificar-se de que Almeida estava consciente da situação em Vale Alberione, tratou do assunto urgente com o oficial da Real Força Aérea.

─ Tenente brigadeiro, recebemos um arquivo que estou enviando para o senhor neste momento… ─ e suspirou pesadamente. Seus olhos pareciam já não enxergar muito bem. Seu coração batia cada vez mais forte, como se tivesse vontade de exibir-se em público. ─ É provável que o conde do Vale tome atitudes desesperadas conforme perceber que o cerco está fechando ao seu redor…

“Meu Deus…” Almeida deixou escapar o suspiro.

─ Sim, tenente brigadeiro… ─ Souza prosseguiu, então. ─ Como o senhor pode ver, não existem maiores detalhes por quem ou como a bomba será detonada… na verdade nem sabemos se de fato existe uma bomba a ser detonada na represa de Vale Alberione… Mesmo assim, se houver, não sabemos… mas acredito que o conde deva ter alguma forma de ativação remota. E, se isso acontecer…

“Vale Alberione some do mapa”, a voz de Almeida, desta vez, foi mais embargada que áspera.

─ Nos preocupamos com a segurança do rei, uma vez que o conde faz parte da Família Real e e tem substancial importância para Sua Majestade. ─ Souza concluiu.

“General, o senhor está sugerindo retirar o rei do palácio?” Almeida pareceu incrédulo.

─ Não, tenente Almeida, eu estou orientando o senhor a iniciar o protocolo de defesa do monarca. ─ o tom solene e tremido de Souza deu a gravidade necessária.

Após o rápido silêncio do outro lado da linha, Almeida respondeu.

“General…” ele respirava desconfortável e, curiosamente, ao general ocorreu a ideia de que o tenente estivesse ajeitando a postura em sua cadeira. “Estamos realmente diante de uma ameaça real ao rei?”

─ Tenente brigadeiro, veja bem… ─ pela primeira vez, Souza teve de fazer uma pausa para respirar e reunir coragem. ─ Nós estamos diante da ameaça de uma guerra civil que, por acaso, conta com a contribuição de um membro da Família Real próximo ao próprio rei. Isso basta para preocupar o senhor?

“Sim. Isso basta” Almeida respondeu, desiludido e sem ânimo em sua voz, “Daremos início ao protocolo imediatamente”.

─ Tenente brigadeiro, de minha parte era isso. ─ despediu-se o general.

“Muito obrigado, general” e a ligação foi encerrada.

Enquanto Souza organizava os passos seguintes para a interceptação do plano de destruição da cidade de Vale Alberione, Almeida, no palácio do rei, iniciava algo que havia esperado não ter de iniciar por uma necessidade verdadeira novamente. Repetindo o ritual que realizou alguns meses antes, retirou de sua primeira gaveta da escrivaninha uma pasta preta fosca com um emblema em prata do gabinete de segurança de sua majestade.

Em poucos gestos, telefonou para algumas pessoas e solicitou o imediato deslocamento da princesa Letícia ao palácio do rei sem que este soubesse de coisa alguma, ao mesmo tempo em que carros e locais eram preparados, longe do conhecimento público ou mesmo do governo. Concluídas as ordens, Almeida saiu de seu gabinete e, sem o usual bater de porta, entrou gabinete real adentro, interrompendo a caminhada nervosa do monarca, que encarava, no ato, o jardim que se desenhava metros abaixo de sua visão. Naquele momento, o rei interrompido encarou os olhos de Almeida.


Obedecendo às ordens do general Souza, o grupo que invadiu a delegacia e carregara o delegado fazia da auto-estrada rumo a cidade de Vale Alberione um autódromo. Usando de toda a velocidade possível, dançava entre os poucos carros que encontrava pelo caminho, até que se deparasse com uma cena desesperançosa. As cores vermelho e branco vindas das viaturas da Guarda Nacional eram um indício de que o encontro não se fez em tempo.

Uma área considerável do acostamento dos dois lados da estrada fora ocupada por viaturas da Guarda Nacional, estacionadas com visível pressa. O comboio das Forças do Rei avançou pela área cultivada, sem que precisassem parar no meio da rodovia.

─ Ei, ei! ─ uma voz de comando soou de imediato quando da parada dos veículos das Forças do Rei.

Quem primeiro desceu do veículo foi o capitão do exército Azevedo, sujeito de poucas palavras, com quem o outro capitão teria problemas. Azevedo falou de imediato.

─ Recolha o seu pessoal e venha conosco. A partir de agora o senhor se reportará a mim e sua equipe será considerada de interesse de nossa operação. ─ Azevedo fez um sinal rápido para os outros militares que se reuniam, indicando que vasculhassem a área.

─ Como assim, me reporto a você… quem é você, afinal…? ─ o capitão da Guarda Nacional ia falando quando Azevedo apontou para o seu peito, onde um símbolo nada discreto escrevia em letras garrafais “AS FORÇAS DO REI”, emudecendo o outro.

─ Identifique-se.

─ Capitão Donelli, senhor. ─ o capitão apresentou-se contrafeito. De fato, percebeu que seu passo vacilou quando finalmente compreendeu, à luz do fim da tarde, com quem tratava.

─ O que foi que aconteceu aqui? ─ Azevedo perguntou, sem amenizar a tensão em sua voz.

─ Uma das viaturas capotou. ─ Donelli apontou para o meio da lavoura, onde o carro se amontoava, cercado de agentes da Guarda Nacional, no fim de uma trilha de destroços.

─ Algum óbito? ─ Azevedo perguntou, enquanto ele e Donelli se dirigiam ao carro acidentado.

─ Ao que parece, não. ─ Donelli informou, acompanhando um Azevedo apressado.

─ Tire eles de lá. ─ Azevedo ordenou, indicando os agentes com uma das mãos. ─ Eu preciso de todos aqui.

Após uma rápida e esclarecedora conversa com os agentes da Guarda Nacional, Azevedo tratou de descobrir o que mais acontecera. Contudo, deparou-se com uma descrição muito pobre dos fatos que levaram ao acidente, restando saber apenas que, de um momento para o outro, o carro perdeu o controle e capotou violentamente. Estranhou, ainda mais, o fato de que os outros dois civis que deveriam estar sob custódia da Guarda Nacional não se encontravam naquela caravana, mas eram procurados por outra parte do grupo que permaneceu em Vale Alberione.


Era véspera de Natal, então havia muita gente sem ter o que fazer em Vale Alberione, especialmente em tempos em que grande parte da população encomendava a ceia diretamente dos restaurantes. Por isso, quando os sons de motores nervosos e sirenes histéricas interromperam a serenidade daquela que poderia ser a última véspera de Natal antes de uma guerra civil, todos os que não se assustaram demais colocaram-se porta afora, espiando de suas varandas ou dos gramados mesmo, usando todo o possível como camarote para o raríssimo espetáculo.

Não era todo dia que um delinquente era perseguido com tamanha determinação na cidade, embora, qualquer perseguição teria sido uma completa novidade para os locais. Ainda assim, quando o veículo foi finalmente cercado em uma esquina por cinco viaturas da Guarda Nacional, ver os homens e mulheres fardados apontando armas para a motorista foi assustador demais até mesmo para os mais ávidos fofoqueiros da comunidade. Mas a gota d’água de verdade foi ver uma professora altamente cotada pela comunidade sair do banco de motorista. O  silêncio nervoso deu lugar a um cochicho escandalizado que preencheu as ruas pelo perímetro de cinco casas.

Marcelina saiu do carro com as mãos erguidas e uma expressão misteriosa, da qual não se poderia extrair muitas conclusões. De uma das mãos, deixou cair a chave do veículo. Outra mulher aproximou-se dela com a arma mirando seu rosto.

─ Vire-se lentamente e com as mãos na cabeça! ─ ela praticamente gritou, não permitindo que qualquer sinal de insegurança fizesse tremer sua voz. Enquanto seus colegas faziam as honras de mirar a cabeça de Marcelina, a policial apalpou  apressadamente o corpo inteiro de Marcelina à procura de qualquer dispositivo ou objeto perigoso. Nada encontrando, prosseguiu. ─ Precisamos saber com urgência onde estão os dois.

─ Que dois? ─ Marcelina também soube fazer soar uma voz firme.

─ Sarah e Mathias, onde estão? ─ por incrível que fosse, a moça parecia mais preocupada com o estado de saúde deles do que, de fato, à sua caça.

─ Não sei. ─ e, por mais que quisesse colaborar com eles, negando a sua quase infinita falta de confiança naqueles uniformizados, ela realmente falava a verdade.

─ Marcelina, eles correm perigo de verdade. ─ a guarda disse, com urgência. ─ Sabemos de Leonardo de Mattos.

Embora a informação tenha abalado Marcelina, ela jamais deixaria isso transparecer, afinal de contas, aquilo em nada lhe trazia segurança. Ao contrário, sentiu-se fortemente inclinada a acertar um murro no meio do rosto daquela boneca uniformizada. Com a mesma expressão serena, ela respondeu, desta vez, num quase sussurro:

─ Eu sei. ─ e acreditava saber, mesmo. Sentia em seus ossos que aquela mulher mentia. Por qual outro motivo ainda estavam oito pessoas mirando sua testa?

Como se ouvisse seus pensamentos, o guarda deu ordem para que baixassem as armas.

─ Você precisa vir conosco. ─ e, suspirando desanimada, completou: ─ Não me dê trabalho. Eles já devem estar chegando e as notícias não são boas.

Marcelina foi conduzida para uma das viaturas acompanhada intensamente pelos olhares perplexos da população. Pôde ver de sua janela que, enquanto algumas pessoas sequer percebiam suas bocas abertas debilmente, outras buscavam disfarçar a reação, cobrindo-as com suas mãos. Atipicamente, todas pareciam lamentar profundamente, como se não condenassem Marcelina e, sim, tivessem pena dela. O veículo arrancou e as sirenes não soaram desta vez. 

De repente, Marcelina percebeu assustada, novos elementos de novas cores juntaram-se à Guarda Nacional em sincronismo surpreendente. Veículos camuflados deram à caravana que levava Marcelina um espetacular ar de comboio, como se transportasse o rei ou o Osama Bin Laden.

Não menos surpresos, os curiosos que até então haviam se aglomerado em frente às suas casas para observar a detenção de Marcelina, desta vez, repensaram seus camarotes, abrindo mão deles para se refugiarem discretamente em suas casas, outra vez. Rapidamente, a expectativa excitada por alguma agitação na cidade foi substituída por uma forte saudade da mesmice. As Forças Armadas foram vistas de forma inesperada em Vale Alberione apenas uma vez, para apresentar ao vilarejo a guerra civil de décadas atrás.


Pedro Dunkle-Nacht já antevia seu futuro. De alguma maneira, parecia que a verdade se esgueirava por entre as tensões vividas pelo prefeito naqueles momentos de desilusão. O gosto amargo em sua boca era-lhe como um aviso macabro, embora desprovido de qualquer fundamento lógico ou científico que ele mesmo conhecesse. Por seu corpo inteiro, calafrios dançavam vez e outra. Por um momento, ele pensou saber como se sentiriam os porcos na fila do matadouro se tivessem conhecimento de seu destino. Então, finalmente, o carro parou e o motorista soltou uma risadinha debochada. 

─ É… ─ o motorista suspirou, e Pedro pôde notar o movimento nervoso do queixo mexendo de um lado para o outro. Saindo do carro, continuou, em alta voz, como se revelasse o passo seguinte de uma surpresa de aniversário. ─ Eles já sabem!

Aquele motorista inconveniente que o buscara no hospital já não estava mais ali. Tampouco o carro era o de Pedro. Naquele momento, Leonardo de Mattos tirava seu amante de um carro prateado sem qualquer sinal que recordasse às carícias passadas. Num gesto rápido, colocou-o de contra o carro, espremendo seu corpo contra o dele e, num deboche previsível, cochichou “Não se empolgue” ao pé do ouvido de sua vítima enquanto prendia seus punhos com fita adesiva.

Rapidamente, Pedro estava firme em seu eixo gravitacional outra vez, sem capacidade de falar ou de desviar o olhar daqueles olhos frios e odiosos que via diante de si, jamais os do Leonardo que conhecia, mas os do assassino de sua esposa.

─ Vamos passear, meu cachorrinho? ─ Leonardo riu maliciosamente, aumentando a revolta no estômago e no espírito de Pedro. Agarrando um dos braços dele, após dar um tapinha no seu ombro, Leonardo deu início à uma caminhada pelo mato da reserva, sem saber o caos que se instaurava muito abaixo deles, na pequena cidade.

Sirenes, mais uma vez, agora não de viaturas, mas aquelas emitidas dos enormes postes espalhados pela cidade e dos smartphones de habitantes comuns. Ao mesmo tempo em que sirenes e aplicativos comunicavam os cidadãos de Vale Alberione do perigo do rompimento da represa, Marcelina se encolhia em convulsões na delegacia ao tomar conhecimento da morte de Eugênio e os dois irmãos Brothwell se entreolharam nervosos no Casarão.

─ E agora? ─ Sara finalmente cochichou.

─ Não sei. ─ Mathias respondeu.

Estavam espremidos no mesmo cômodo que, dias antes, abrigou-os de Leonardo de Mattos. Haviam se separado de Marcelina quando ela percebeu que seriam pegos pela Guarda Nacional se permanecessem com ela, mas não conseguiram pensar no movimento seguinte. Com o alarme da represa soando constantemente, a pressão aumentou e a realidade da estupidez de seu plano pesava mais sobre eles. Havia urgência no ar.

“Alerta! Perigo de inundação. Isso não é um treinamento. Abrigue-se em lugar alto. Use o aplicativo da represa. Isso não é um treinamento. Abrigue-se em lugar alto”, repetiam os alto-falantes, intercalando os avisos com as sirenes.

Na cidade, as emoções já abaladas pelos recentes eventos colapsaram com o aviso. Rostos lívidos e cheios de medo confundiam-se nas ruas. Pessoas corriam para seus carros, carregando algumas roupas, mas não mais que isso. Muitas outras haviam deixado veículos para trás e seguiam a pé com toda a pressa para os abrigos que, agora, sob a fraca luz do fim do dia, eram iluminados por enormes sinalizadores de LED, piscando constantemente. Grandes plataformas de concreto e aço, montadas muito acima dos telhados das casas, cujos formatos semelhantes às sementes de laranja tinham a função de diminuir o atrito com a água caso ela chegasse até aquela altura, deveriam proteger as pessoas da possível onda mortal.

Menos de vinte minutos passados e praticamente a cidade inteira se encontrava nestas plataformas, aglomerada em grandes multidões, uma ou outra criança chamando os pais ou já em choro enquanto os adultos não ousavam fazer mais do que cochichar, como se um tom mais alto pudesse pôr tudo a perder. A angústia era quase fisicamente sensível.

Montanha acima, na floresta da represa, Leonardo de Mattos fazia Pedro sentar-se, ainda de mãos amarradas, em um nicho entre duas grandes árvores. No fim do dia, ainda era possível vislumbrar qualquer feixo de luz que se espremia por entre os galhos e folhas, iluminando em flashes o chão tomado de folhas mortas, gravetos e galhos secos. Algumas pedras desparelhas se destacavam, provavelmente testemunhas lançadas à beira do caminho da grande história da construção da represa. Os flashes do sol poente eram tudo o que se podia ver de luz, pois, apesar deles, o restante era muito escuro.

Leonardo preparava alguma coisa, esta era a única certeza de Pedro. De resto, tinha uma forte sensação de que aquele mato seria o último lugar que veria em vida. Por isso mesmo, talvez, buscou aproveitar cada momento.

À medida em que deixava de prestar atenção em sua própria respiração e no tilintar nervoso do que lhe pareceu serem chaves ou correntes, conseguiu ouvir, não tão distante quanto antes parecia, o som da água que caía de uma das comportas da represa. Era suave, quase terapêutico.

Menos de um metro distante de Pedro, Leonardo aproximava seu smartphone com a chave eletrônica de uma porta alternativa para a entrada da represa. Certamente distante da entrada principal conhecida de todos, ela dava para um longo corredor enterrado e de paredes grossas.

Ele agarrou seu ex-amante mais uma vez, arrancando-o de seu devaneio e colocando-o à sua frente. Entrando atrapalhados no túnel, tropeçaram de maneira a quase caírem. Com um baque surdo, a porta fechou-se atrás deles.

─ A sorte não foi tão grande, né amor? ─ Leonardo falou em um tom mais alto do que o desejado. Ajeitando-se novamente, sentiu as mãos amarradas de Pedro roçarem sua virilha. ─ Viu? Se você soubesse que as fantasias eram treinamento, jamais teria me deixado te amarrar tantas vezes, hein?

Mas Pedro não falava. Não conseguia. Nervoso, o conde sentiu-se inclinado a falar, como um viciado em abstinência.

─ Eu sinto muito pela Dani, sinto de verdade. ─ e, como se fosse possível, o ar se tornou ainda mais pesado. ─ Ela era uma mulher muito inteligente e, como era de se esperar, sendo professora, também era curiosa. Defeitos da raça, todos sempre tem uma falha.

Subitamente, as pernas de Pedro pareceram lutar contra meio metro de água lodosa para que conseguisse dar passo após passo. Entraram no assunto que fez de Pedro um homem sem referências.

─ Como você já deve ter entendido, afinal de contas você também é inteligente, né meu amor… ─ e Leonardo riu de si próprio. ─ a gente teve que fazer ela calar a boca. Mas ela não quis. Essa raça de professores! Buscam o próprio fim, eles vão se extinguir da face da Terra, escute o que eu te digo.

E davam mais passos em direção ao que parecia ser o fim do corredor penumbroso.

─ Olhe o Richard. ─ Leonardo continuou, como se defendesse uma tese em mesa de bar. ─ Outro professorzinho metido! Ficasse quieto no canto dele não teria visto a gente se pegando. Esse foi com as minhas mãos mesmo, o primeiro.

Cada vez mais próximos do fim do corredor, Pedro viu mais uma porta.

─ A Dani eu encomendei e os garotos deram jeito de parecer que ela fez o serviço de mulher no volante. Nada como ter uma comunidade machista pra se contentar com pouco. Enfim. ─ ele suspirou. Em seguida, usou um tom mais grave, ainda assim, em uma montanha russa de sentimentos a cada sentença. ─ Richard foi o meu primeiro. Mas os dois foram pelo mesmo motivo. Os dois eu tive que tirar do caminho. Eles souberam demais.

Finalmente, chegando ao fim do corredor, poucos passos os separavam da próxima porta.

─ Mas você, meu bem. Você, eu usei para interferir nessa empreitada aqui, essa represa linda que hoje vai pelos ares. ─ e Leonardo respirou ainda mais fundo, como se os passos dele também estivessem pesando mais e mais. ─ Sem você eu não teria chegado onde cheguei junto do movimento. Graças a você, meu amor, esse país vai entrar em uma nova guerra civil.

Então, finalmente, Pedro sentiu-se pressionado contra a parede. Leonardo, uma última vez, mordeu a orelha de seu antigo amante, enquanto apontava para a porta seu smartphone com a chave eletrônica. Com o clique que abriu a porta, ele trocou de guia.

A porta abriu e, diante dos amantes, a luz forte do ambiente seguinte foi amenizada pelas sombras de vários militares das Forças do Rei com armas apontadas para eles. Ambos congelaram. Embora Pedro soubesse ser um fantoche, traído por sua mais recente paixão, sabia que tampouco era uma vítima aos olhos daquelas pessoas. Também ele recuou, enquanto sentia a mão que o segurava largar suavemente seu punho amarrado.

─ Olá… ─ Leonardo disse. Engoliu nervosamente e continuou. ─ Não queremos que eu acione esta bomba tão cedo, queremos?

─ Vossa Graça, por favor, renda-se. ─ disse aquele que estava de frente para os dois, um sujeito de altura mediana e expressão definitiva como um túmulo. ─ Não pretendemos fazer mal algum para o senhor.

─ Eu sei. ─ Leonardo concordou, sem concordar.

─ Que tal se o senhor deixar Pedro vir até nós? ─ o homem sugeriu, baixando sua arma, sem ser acompanhado pelos demais militares.

─ Sol-soltar Pedro? ─ Leonardo repetiu, consciente de que já não o segurava mais. Com a mão que segurava seu amante, agora erguia firmemente uma arma, enquanto Pedro permanecia enrijecido a sua frente. ─ Pedro, meu amor?

─ Sim… ─ falando pela primeira vez em muito tempo, a voz do prefeito soou engasgada, revelando ao próprio homem o tamanho de sua fragilidade.

─ Pode ir. ─ Leonardo disse, quase sussurrando outra vez.

Pedro demorou para agir, mas se movimentou. O que pareceu ter tomado horas daquele dia, o primeiro passo de Pedro foi dado com incerteza, como se lutasse para sair de seu lugar, ou se estivesse ainda amarrado ao seu carcereiro. Enquanto dava seu segundo e tímido passo, sentiu o ferro gelado pouco acima de sua nuca. Antes que o frio espantoso percorresse de alto a baixo, no entanto, seu corpo tombava. Pedro caiu morto no chão.

Enquanto uma nuvem de sangue preenchia o ar e o amante caía para selar o seu destino, Leonardo confirmou uma operação simples em seu celular e um militar escondido, assim como previsto pelo conde, disparou contra ele. 



Imagem de destaque: Denny Muller no Unsplash.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s